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Jun
13th
Sat
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Estive há dez minutos atrás, da varanda do meu quinto andar, a observar a cúpula invisível entre o céu e o enorme lego de betão e a sentir-me um inquilino passageiro desta pensão de uma estrela perdida na imensa cidade negra a que damos o nome de universo. Curiosamente parece que é o único sítio que temos para passar a longa noite que nos espera. E é aí que eu saio para apanhar a frequência, como que a comer um ponto e a cagar um verso, no meu prisma, a encaixar, provavelmente no de outros feito um filósofo de merda. Mas a vida é isso mesmo, um monte de gente a fazer de conta que se entende e ninguém sabe dizer o que viveu. E por isso nos pedem que caminhemos alegres para o precipício, sem questionar, porque estaremos sempre longe. mas longe rapidamente fica perto e perto rapidamente passa por nós. Eu não quero mandar-te para baixo, mas eu sei que me entendes, tu também tens medo de morrer, toda a gente tem. Só que normalmente evocamos nomes de problemas para nos convencermos que estamos ocupados a resolver uma situação importante, quando não tem importância nenhuma. Entretanto o tapete rola e nós irritamo-nos com a inevitabilidade, e nos nossos sonhos dizemos: “Torna-me imortal! Torna-me imortal! Eu não vou aguentar deixar de existir!” E é aí que eu entro para sair da frequência, seduzir-te com os meus sonhos. Tu não vês como empreendo? E como eu mais um milhão de sonhadores leva com ele muitos braços de outros, acéfalos, na lotaria dos ideais, descrentes, beijando o número do bilhete. Mas quero dizer-te que a viagem é tua, e eu não quero empurrar-te à força para a rua. Se eu falhar eu vou passar de deus a carrasco, embalsamado e metido dentro de um frasco, para te lembrares da mentira. Mas a verdade é que ganhamos sempre.
— Manel Cruz